Especial 3 - Invasões biológicas incluem algumas das principais doenças

08:07
 

Mylena Fiori
Repórter da Agência Brasil


Brasília - Engana-se quem pensa que a dispersão de espécies pelo planeta só preocupa ecologistas. A coordenadora do grupo de saúde do Informe Nacional sobre Espécies Invasoras, Márcia Chame, lista alguns exemplos bem conhecidos dos brasileiros propiciados pelo livre trânsito de pessoas e cargas pelos cinco continentes: a gripe, que chegou ao Brasil com os colonizadores europeus; a leptospirose, veiculada pelos ratos que vieram de contrabando nos navios negreiros; e o mosquito da dengue, de origem africana, que chegou numa carga de pneus usados, nos anos 80. O próprio vírus da aids, ela lembra, é uma espécie que o ser humano espalhou.

"As espécies exóticas vêm com a expansão do homem pela terra. As fronteiras, que seriam naturais, não funcionam", explica Chame, que é pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz. Segundo ela, a melhor forma de combate é a prevenção. "Não há motivo para alarme, somos nós que propiciamos a proliferação. Se a cidade fosse limpa, provavelmente não teria surto de dengue", exemplifica. "A espécie pode ser exótica, mas jamais será invasora se não tiver condições para se reproduzir." Por isso, conclui, são essenciais sistemas de tratamento de esgoto e coleta de lixo em todas as regiões.

A pesquisadora destaca a importância de informar a população: "É o mais importante. A pessoa tem que saber que a sua atitude pode ajudar". Entre as recomendações que serão apresentadas no 1º Simpósio Brasileiro sobre Espécies Exóticas Invasoras, que começa hoje (4) e vai até a próxima sexta-feira (7) em Brasília, está a veiculação, na mídia de massa, de informações sobre os impactos e a necessidade de ações para do problema.

As recomendações incluem a criação de um sistema nacional de prevenção e controle de espécies exóticas invasoras, com fortalecimento nas fronteiras. "Não adianta o Ministério da Saúde fazer uma coisa e o da Agricultura, outra", afirma Márcia Chame. Outra recomendação do grupo de trabalho liderado pela pesquisadora é a criação de um programa de capacitação e treinamento de todos os agentes envolvidos. Os dois ministérios e o do meio Ambiente são os principais órgãos executores das medidas nessa área, mas quem tem o primeiro contato com viajantes e mercadorias é a Polícia Federal.

"Não dá para ter um megaespecialista em cada aeroporto e cada fronteira, daí a importância de um sistema integrado", destaca a pesquisadora. "A Polícia Federal tem uma responsabilidade muito grande. Se os agentes tiverem acesso fácil a informações e souberem identificar o risco, podem acionar a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] ou o Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] e até enviar material para análise em laboratórios de referência", exemplifica.

Marta Chame afirma que o país tem condições de enfrentar as espécies exóticas. Segundo ela, o governo federal já demonstrou eficiência nas vezes em que houve notificação ou alerta por parte da Organização Mundial da Saúde (OMS) ou da Organização Mundial do Comércio (OMS) sobre alguma epidemia.

04/10/2005

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